ONU

 Por: Luiza Tofoli dos Santos

Março/2018

No fim de 2017, nossa diretora geral Irmã Marinez Capra adentrou às salas do 9º ano à 2ª série do Ensino Médio, pedindo um pouco do tempo de todas as meninas ali presentes. Ela nos contou que, pela primeira vez, o Brasil havia sido chamado para atender à Comissão sobre o Status da Mulher, que todos os anos é feita pela Organização das Nações Unidas na sede de Nova York. A ONU, entre outras divisões, possui uma voltada para a Educação, Cultura e Ciência, que se chama UNESCO, e o CNSD é associado dessa unidade, assim como outros colégios espalhados pelo mundo que fazem parte da mesma ONG que o nosso colégio: as Irmãs Escolares de Nossa Senhora (IENS).

Essa Comissão, por sua vez, requer a participação da sociedade civil.

Então, a diretora Marinez nos deu a incrível notícia de que três meninas do Brasil seriam escolhidas para ir, junto com ela, à Nova York. No entanto, só uma do CNSD seria selecionada, afinal, as demais viriam de outros dois colégios – uma da região sul e a outra da nordeste do Brasil.

A Diretora, então, pediu por voluntárias. O único pré-requisito era um domínio geral do inglês, e eu acabei por me candidatar. A etapa seguinte consistia em redigir uma apresentação de cinco minutos sobre o tema prioritário da comissão: Os desafios e oportunidades em se atingir igualdade de gênero e empoderamento das mulheres rurais. No dia de apresentar, eu estava muito nervosa, mas deu tudo certo.

A última etapa foi uma surpresa para mim mas, ao mesmo tempo, mais descontraída. A diretora geral Marinez nos chamou, individualmente, em sua sala com o objetivo de conversarmos em inglês. Algumas semanas mais tarde, tanto eu como meus pais fomos chamados para uma reunião: eu havia sido selecionada.

 

Preparação

Quando soube do tema que seria discutido no evento, me perguntei como poderia, de certa forma, me preparar. No mesmo dia, pesquisei como a CSW (Comission on the Status of Women) funcionava. Descobri que lá se discutiam as lacunas e o progresso em relação à Declaração de Pequim, de 1995, que nada mais é do que uma Plataforma de Ação voltada ao empoderamento feminino e meios de se atingir a igualdade dos gêneros. Não li a declaração inteira, mas uma boa parte dela, onde fui tomando notas.

No entanto, não era o suficiente. Acontece que meu maior desafio estava em receber informações sobre uma realidade que não é a minha, e da qual estou muito distante, afinal, nasci e cresci em São Paulo. Então, partiu de mim a vontade de visitar uma escola rural.

Mas muita gente tornou isso possível.

Na noite do dia 26 de fevereiro, uma segunda-feira, minha mãe e eu entramos em um ônibus com destino à Araraquara, cidade interiorana do estado de São Paulo conhecida como a morada do Sol. Acontece que meus tios moram lá, então teria onde ficar para poder visitar as escolas. Aliás, minha prima foi quem ligou para as EMEF (Escola Municipal de Ensino Fundamental) que se localizavam em assentamentos próximos a cidade; ela é professora e tem seus contatos. No dia seguinte, após o almoço, saímos com o intuito de visitar a EMEF Hermínio Pagotto, no assentamento Bela Vista. No entanto, por conta da chuva, o rio encheu e a correnteza avançou sobre a estrada: não pudemos ir, o que foi um pouco frustrante.

No dia 28, nosso último dia na cidade, saímos eu, meus tios e minha mãe rumo à EMEF Maria de Lourdes Silva Prado. Pegamos em torno de uma hora de estrada de terra, o acesso ao assentamento Monte Alegre era difícil. Quando chegamos, a diretora Lucia nos recebeu, além das coordenadoras; todas foram muito atenciosas e se prontificaram a me mostrar toda a área da escola.

Após o término do intervalo dos alunos, as professoras reuniram todas as meninas que estavam presentes, naquele dia, em uma sala, para que eu pudesse conversar com as mesmas. Novamente, estava muito nervosa, mas as profissionais me ajudaram. Contei o porquê de estar ali, contei como funcionaria a Comissão Sobre o Status da Mulher, e fiz uma série de perguntas que envolviam o cotidiano escolar e familiar delas. As alunas eram tímidas, na maioria das vezes era complicado obter resposta de todas. Por isso, minha proposta, ao final da conversa, era que escrevessem uma carta contando o que elas mais gostavam sobre morar no campo, o que elas não gostavam e o que podia melhorar no assentamento. Mais adiante no texto, você leitor vai saber o destino dessas cartas de conteúdo riquíssimo.

Certo, faltando em torno de dez dias para a viagem, confesso que a ficha ainda não tinha caído. Só foi cair quando pisei no aeroporto, acompanhada do pensamento: está mesmo acontecendo... Fui a última a chegar, todas já estavam na fila para despachar as malas: a Irmã Marinez, a Sandra, a Nathalia e a Lorena. Comecei a conversar com as meninas e rapidamente fizemos amizade, o que seria muito bom para nossa experiência. Ao longo da viagem, soubemos que o Brasil foi o único país que trouxe alunas que não se conheciam previamente, o que deixou a delegação um pouco surpresa, afinal criamos uma amizade de forma rápida, mas não quero antecipar as coisas.

O vôo foi tranquilo. Pegar o segundo carimbo no passaporte foi incrível. No aeroporto de Nova York (John F. Kennedy), por onde passava, haviam frases de boas-vindas e curiosidades sobre a cidade, como por exemplo: Alguns nova-iorquinos nascem aqui, outros, são feitos; ou, ainda: você sabia que nova-iorquinos usam termos como “uptown” e “downtown” ao invés de “north” e “south”?

Fiquei encantada! Ao sair do aeroporto, contudo, repito desde então que até aquele momento, eu não sabia o que era frio de verdade. Era de manhã, e se não me engano, -4°C, tivemos que caminhar até o carro após sermos recebidas carinhosamente pela Irmã Eileen. O caminho até a casa onde estavam as irmãs foi lindo, havia neve, o que conferia uma aura de filme na cena. Conversamos um pouco com a Irmã: era ali que eu precisava começar a praticar meu inglês.

A casa era grande, em formato de pentágono, tinha dois andares e um lindo jardim no centro. Ao redor, tudo era neve. Lembro que ficamos na Wing II da casa, e me surpreendi quando soube que teríamos quartos individuais. Após chegarmos, pegamos o trem e fomos para Nova York. Nesse dia, fomos ao local onde deveríamos pegar nossos crachás para participar da comissão, então deveríamos apresentar a carta de aprovação enviada anteriormente pela ONU, após nossa solicitação. Como já tenho 16 anos, peguei um crachá convencional; tanto a Nathália como a Lorena precisaram pegar a fila UN Youth (ONU Juventude), pois ambas, em março, tinham 15 anos.

Lembro de como foi sair do trem e me deparar com a incrível estação Grand Central, a construção é hipnotizante. Demorou para me acostumar com o frio beirando os 0°C, mas isso não atrapalhou a sensação indescritível que senti quando andei pelas calçadas de Nova York. Parecia como nos filmes.

Na noite do mesmo dia, quando retornamos, soubemos que todas as meninas já estavam lá: as americanas Charlotte, Megan e Chavanne, vindas de Baltimore; as japonesas Marin e Miyu, de Kyoto; as austríacas Elizabeth, Sofia e Angelica, de Viena; e a Irmã Zipporah, vinda do Quênia. A Irmã Eileen e a Irmã Carolyn reuniram toda a nossa delegação no Atrium. Tive uma das experiências mais incríveis da minha vida.

A dinâmica foi a seguinte: em uma fila se posicionaram nós brasileiras e as austríacas, uma do lado da outra. Em frente a nós, as demais meninas e as irmãs Zipporah e Eileen. Então, Carolyn nos lançava perguntas para nos conhecermos melhor, pediu para escolhermos três coisas que mais gostávamos sobre nosso país e contar à pessoa que estava a nossa frente. Quando acabava os dois minutos, nossa fila se movia para a esquerda, até termos conversado com todas as meninas de outra fila. Espero que tenha conseguido ilustrar bem - todas as vezes que tentei explicar, acabei me atrapalhando.

No domingo, eu, Lorena e Nathália tiramos o dia para ficar na neve, conhecer a casa e tirar fotos. As irmãs nos deram algumas orientações: a sede da ONU era como um aeroporto, ou seja, havia detectores de metal e uma equipe enorme de segurança; nos deram um mapa da cidade, explicando que a sede ficava na 1st Avenue (Primeira Avenida), e que os eventos paralelos, ou seja, os eventos que tinham a mesma temática que a Comissão sobre o Status da Mulher, não ocorriam na sede da ONU, aconteciam nos arredores. Já os side events ocorriam no prédio.

Ainda no domingo, após receber as orientações, nos reunímos no quarto da Lorena para acertarmos nosso cronograma do dia seguinte. Baixamos o aplicativo da Comissão, então sabíamos de todos os eventos que aconteceriam dentro da sede da ONU, e em outro site tinhamos acesso à todos os eventos paralelos. Durante a tarde, Eileen propôs que nós entrevistássemos umas às outras, para depois escrever um parágrafo junto de uma foto, pois seriam ambos publicados no site da congregação. Entrevistei Marin.

Na segunda, acordamos cedo, como tínhamos combinado no dia anterior. Tomamos café e pegamos nosso almoço: todos os dias preparávamos um lanche reforçado para levar à sede da ONU e comer entre um evento e outro (levávamos em sacos como aqueles dos filmes). Ao chegar em Nova York após uma hora de trem, fomos em direção ao evento paralelo que aconteceria no The Armenian Convention Center, chamado How Teenage Girls Achieve Empowerment.

A experiência nos eventos durante os cinco dias de Comissão foi intensa e incrível. Todos os dias, as salas de conferência estavam lotadas, pessoas andando rapidamente de um lugar para o outro carregando bolsas enquanto tentavam atravessar o prédio a tempo de chegar em outro evento. A visão que tinha acerca do que acontecia na ONU mudou quase que completamente.

Antes de viajar, ainda que tivesse feito muitas pesquisas, eu achava que a Comissão acontecia em uma única sala, daquelas com o pé direito enorme, e então, representantes de diversos países discutiam sobre o tema e, a partir da discussão, sairiam medidas, projetos, leis e parcerias para viabilizar o empoderamento feminino e a igualdade de gênero. Essa era a minha ideia.

No entanto, as coisas funcionam de outra maneira. A Comissão, em suma, é um espaço direcionado à ONGs que lidam com o tema, governos e civis, que, motivados pela vontade de mudar sua própria comunidade, em seu país, solicitam permissão à ONU para participar dos eventos, onde recebem informações, dados e, principalmente, inspiração. Vários eventos aconteciam simultaneamente - alguns extremamente específicos, os quais lidavam com as particularidades de apenas um país e aconteciam em salas menores; outros eram muito abrangentes, reuníam ONGs de diversos países, que apresentavam projetos que deram certo, desafios pelos quais passaram e meios de fazer a mudança acontecer.

Na quarta-feira, o primeiro evento que fomos se chamava Cracking the Code: Empowering rural gils and women through digital skills. Uma mulher vinda da Bare Foof College, na zona rural indiana, apresentou dois projetos, que não só inspiram, mas mudaram muitas vidas: o primeiro consistia em escolas digitais noturnas. Eram principalmente destinadas às meninas, mas haviam garotos também; por trabalharem nas propriedades da família durante o dia, os jovens frequentemente abandonam a escola, portanto, o período noturno entra em consenso com a realidade de cada um. Lá são oferecidos tablets e os alunos desenvolvem suas habilidades digitais, eles contam com 25 unidades e aproximadamente 75 professores. O outro projeto, chamado Solar Mamas, consiste não só em trazer energia às comunidades indianas que eram desprovidas de eletricidade, mas também na reinserção de mães no mercado, ajudando-as a desenvolver suas habilidades. Uma das várias coisas que ficou clara durante os dias de Comissão foi: mulheres enfrentam uma dificuldade tremenda para voltar a trabalhar depois de ter filhos. O projeto oferece um curso de cinco meses, onde aprendem a lidar com painéis solares e como instalá-los.

Outro ponto que era constantemente retomado nas dicussões era relacionado aos role models: basicamente, a representatividade. Um homem da SAP (setor privado) (sim, haviam homens na comissão) disse uma frase que fiz questão de escrever com letras garrafais no meu caderno de anotações: you cannot be what you cannot see (você não pode ser o que você não pode ver). A frase abrange muitas situações. Não vemos mulheres na política, ou seja, não há incentivo, representatividade, ou motivação para as próximas gerações de mulheres assumirem papéis políticos. Nos filmes e novelas, por muito tempo não havia mulheres com papéis fortes, de liderança; isso cria uma cultura com a qual a Comissão tenta acabar.

Ao final de cada dia, nos reuníamos no horário marcado na Grand Central, onde tomávamos o trem e íamos para casa. No caminho, conversávamos sobre os eventos. Houve um dia que eu, Lorena e Nathália passamos o caminho todo falando com Sofia, Elizabeth e Angelica. Todas nós trocamos redes sociais e estamos constantemente curtindo as fotos uma das outras. Temos também um grupo no WhatsApp.

Foi uma oportunidade que, para toda a minha vida, vou ter orgulho de dizer que agarrei. Pude melhorar meu inglês, fiz amizades, inspirei-me, cresci e amadureci. E, depois de muito ouvir a frase EDUCATION IS THE KEY (educação é a chave), estou cogitando a ideia de ser professora.

Educação pode ser revolucionária.

Parece-me que os impactos da experiência serão a longo prazo.

Confira abaixo uma galeria de fotos tiradas por mim: