A essência do amor*

 

por Sabrina Ferreira, aluna da 3a série do Ensino Médio

Quando pensei em iniciar esse projeto fiz uma lista de perguntas que faria à pessoa escolhida. Eu realmente gostaria de sentir tudo o que o(a) escolhido(a) tivesse a mostrar. Questionei-me que pessoa no colégio é gentil, dedicada, que possui uma história bela, interessante, sensível... Depois de estabelecer esses “requisitos” em menos de um minuto eu já sabia quem seria, então, fui atrás dela, o que não foi uma tarefa fácil, afinal ela resolve tantas pendências e vive tão ocupada que, por vezes, achá-la nas dependências do colégio é uma missão.

Quando a encontrei, pedi que contasse sobre sua vida, as coisas que ama, sobre seu envolvimento com a pedagogia, com a escola. Eu realmente queria ter um contato direto com sua alma, com sua essência e descobrir seus momentos preferidos em sua caminhada acadêmica dentre tantas outras coisas.

Guiseppina Gattuso, nascida em San Fele (Itália)

Ao iniciar a conversa de maneira “despretensiosa”, apenas apresentando a ideia do projeto, consegui imediatamente observar o modo como a Pina se interessa por sua profissão. Por diversas vezes disse e exaltava que apesar de amar o que faz, nasceu com a vocação de lidar e viver nesse meio escolar.

Pergunta vai, história vem, e em meio aos seus gestos calorosos que entregam a sua origem, questionei-me quanto tempo de “casa” a Pininha tinha: 43 anos – respondeu. Fiquei imaginando quantas turmas formadas, quantas famílias a conhecem, quantas ligações feitas para os pais. São 43 anos de Colégio Nossa Senhora das Dores. É uma área muito difícil, que exige muita dedicação, paciência e seriedade. Realmente, é necessário nascer com essa "chama" dentro de si.

“Aquele que tem uma profissão tem um bem; aquele que tem uma vocação tem um cargo de proveito e honra”

Benjamim Franklin

Defina-me amor. Amor? Amor é profundo... Depois de uma pausa que foi justificada com um semblante sério, reflexivo, ela retorna a resposta: amar é se doar ao outro. E ela se doou! Tudo o que fez foi de corpo e alma, foi de coração aberto, feito de verdade.

Amor. Que palavra forte e vivida por essa mulher de estatura baixa, mas com tanto desse sentimento que não se restringe às delimitações de seu corpo. Seus olhos ficam marejados ao se lembrar dos momentos felizes e únicos que viveu ao lado de seu amado marido e de sua maravilhosa família.

Diante de palavras que sempre me afirmavam e expressavam o tamanho desse sentimento, ainda assim não são capazes de expressar tudo aquilo que realmente aconteceu no coração da Pina. Ouvir suas histórias apenas com os ouvidos não é suficiente para entender a grandeza de sua jornada, foi necessário abrir a alma e deixar que um pouquinho dela se agregasse à minha.

Continuei com minhas perguntas pré-selecionadas, agora gostaria de saber mais sobre sua relação com o colégio e com a educação.

O que  vem à cabeça quando você pensa no CNSD? E com uma fala convicta, me disse que representava sua segunda casa. Durante parte da conversa uma frase ficou gravada não só no meu coração, mas também em minha mente “amar é doar...”, e ao doar dessa vez, um pouquinho de sua história para mim, ela também recebeu novos motivos para pensar, respondeu a algumas perguntas que nunca tinham sido feitas antes ou que talvez ela nunca tivesse realmente parado para pensar nas respostas.

QUEM É VOCÊ? “Eu não sei, eu sou a Pina! O que mudou foi o meu físico e o cabelo”, disse rindo e apontando para os fios brancos que insistem em nascer. O QUE TE FAZIA SENTIR MEDO ANTES? “No inicio, era ser responsável pela educação de outras pessoas, um trabalho muito difícil!” E AGORA? “Agora? Agora, eu tenho medo de parar, tenho medo de ficar sem fazer nada e deixar de fazer o que eu tanto gosto”.

Será que ainda falta algo na vida dessa mulher incrível? Será que existe algum sonho não realizado? Existe! Continuar lutando para mudar o mundo através da educação até o seu último dia! É um lindo motivo para lutar.

“Nós só podemos transformar o mundo através das pessoas” E foi parafraseando Madre Teresa que ela continua a me provar que a área educacional exige muito mais que esforço, que dedicação, é preciso existir um propósito, perseverança e acima de tudo, ter fé que é através de nossas ações que seremos capazes de transformar o mundo em que vivemos. “Enquanto houver possibilidades de lutar por um mundo melhor, eu o farei”. A certeza no olhar de uma mulher determinada e convicta de suas palavras me vez olhar para dentro de mim e refletir sobre como eu irei ajudar a mudar o mundo, e como ajudarei outras pessoas, seja qual for o ramo que eu for seguir.

Se você pudesse mudar alguma coisa, o que seria?  “Gostaria que os jovens percebessem mais o valor da família e da escola; e que eles tivessem referência de lar. Família é TUDO, é o alicerce da vida, o projeto mais lindo de Deus. Tenho vontade de mostrar isso para as pessoas, para que elas percebam isso o quanto antes”. É preciso ter o coração muito cheio de coisas boas, de bondade, de amor, de tudo aquilo que é belo para escolher o bem do outro muito antes de pensar em seu bem próprio.

Sempre ouvi que é preciso olhar o passado para saber o que nos espera no futuro, mas que não devemos nos esquecer de viver o hoje. E quero dizer que sempre achei muito difícil me concentrar apenas no hoje, e quando a questionei sobre o que foi inesquecível no ano de 2017 e a querida Pininha me disse: “MOMENTOS”. Fiquei curiosa na hora e só pensei que tipo de momentos? Com quem? Onde? E como se ela conseguisse ler meus pensamentos ou talvez minha expressão de confusão complementou: “cada  coisa tem seu tempo, cada momento vivido com verdade é inesquecível. Cada ano foi uma descoberta, cada ano foi marcante, mas de maneira diferente do anterior”. Realmente vejo a valorização dos dias difíceis e das dificuldades que a fizeram ser muito mais forte do que aparenta ser.

Momentos. Em quarenta e três anos no CNSD, seu primeiro emprego, houve perguntas que questionaram o tempo em um mesmo lugar, perguntas que questionavam por que nunca quis experimentar outros lugares... E houve respostas que diziam que podemos fazer de nossas vidas uma passagem; podemos viver sem fazer vínculos e experimentarmos de tudo; mas que em seu caso, a filosofia das irmãs que viam as pessoas como indivíduos únicos foi de encontro com o que buscava de forma tão profunda que isso a fez ficar. A fez iniciar, desenvolver e quem sabe daqui a um bom tempo concluir essa etapa da sua vida junto daquelas que a ensinaram e a inspiravam tanto.

Quando cheguei em casa depois desse primeiro dia de perguntas, refleti muito sobre a situação da educação em nosso país, refleti sobre como os educadores são desvalorizados e como esses deveriam ser mais prezados. Ser educador não se limita às horas dentro da instituição, é necessário levar trabalho para casa.

Houve um momento nostálgico, em que se ouviu o coração dela bater mais forte: ela lembrava das noites pouco dormidas em que passava corrigindo provas, e seu amado não se deitava enquanto ela não terminasse, sempre arrumava algo a fazer para esperá-la. Companheirismo! Eu vi exatamente naquele momento o que preenchia o coração de uma pessoa, que na minha opinião, é o coração da escola! Seus olhos marejam “Ficar junto não é só na fala, mas no gesto”. E como John Green já havia dito em "A culpa é das estrelas" : alguns infinitos são maiores que outros..

Ela nasceu em outro continente, viveu durante uma guerra mundial, viveu períodos difíceis na história do Brasil, estudou em uma das principais faculdades de pedagogia do país, encontrou sua alma gêmea, apaixonou-se verdadeiramente, foi Mãe... Limitar-me a algumas linhas para caracterizar a sua jornada  magnífica não seria justo com sua história, posso dizer que certamente esse pedaço que se fundiu à minha alma me fez perceber que o amor muda tudo, e talvez ela tenha me dado a grande sacada da vida amar, viver é algo que merece destaque, mas viver para amar seja quem for, como for e onde for muda toda a perspectiva da vida e transforma o ser humano em algo extraordinário.

P.S: Caro leitor, eu li, li e reli este texto e ainda assim o sentimento de estar esquecendo algo não me abandonou durante essa jornada. Então, deixo a você a missão de continuar escrevendo essa história.

___________________________

* Revisão técnica: Profa. Mirian Coccetrone da Silva.